Delações da Odebrecht: Arruda pediu R$ 8 milhões em propina para liberar condomínio no DF


Também no setor imobiliário, secretário de Habitação de Agnelo, Geraldo Magela, teria pedido R$ 1,4 milhão. G1 não conseguiu contato com as defesas.

Vista aérea do condomínio Jardins Mangueiral, no DF (Foto: Gabriel Jabur/GDF/Divulgação)Vista aérea do condomínio Jardins Mangueiral, no DF (Foto: Gabriel Jabur/GDF/Divulgação)

Vista aérea do condomínio Jardins Mangueiral, no DF (Foto: Gabriel Jabur/GDF/Divulgação)

A concretização de uma parceria público-privada do governo do Distrito Federal com a Odebrecht – o condomínio Jardins Mangueiral, com 8 mil unidades habitacionais – só foi possível com o pagamento de propina a políticos, afirma um dos delatores da Odebrecht. Segundo o ex-diretor Paul Elie Altit, o ex-governador José Roberto Arruda (PR) pediu R$ 8 milhões como contrapartida. No mandato seguinte, o secretário de Habitação Geraldo Magela (PT) teria pedido mais R$ 1,4 milhão para deslanchar projetos imobiliários.

O G1 e a TV Globo não conseguiram retorno de Geraldo Magela. A defesa do ex-governador Arruda informou que não pretende comentar as delações da Odebrecht, nesse momento. Em nota, a Odebrecht diz que a avaliação das delações é “de responsabilidade da Justiça”.

À época da construção dos Jardins Mangueiral, Paul Elie Altit era presidente da Odebrecht Realizações Imobiliárias, um dos braços da empreiteira. Aos procuradores do Ministério Público Federal (MPF), ele informou que o empreendimento era “único no país”, e contava com financiamento alto, de R$ 700 milhões, da Caixa Econômica Federal.

“Nós resolvemos fazer uma composição com as empresas locais. Essas empresas dificilmente teriam condição de captar R$ 700 milhões de crédito”. Segundo ele, a Odebrecht ficou com 53% do empreendimento, e as firmas menores, com 47%.

“Então, com isso, nós tínhamos empresa local para poder dividir o risco. E, tinha empresa local que tinha algo que a gente não tinha, que era acesso político.”

Ex-diretor da Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Elie Altit, durante depoimento no âmbito da delação premiada (Foto: Reprodução)Ex-diretor da Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Elie Altit, durante depoimento no âmbito da delação premiada (Foto: Reprodução)

Ex-diretor da Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Elie Altit, durante depoimento no âmbito da delação premiada (Foto: Reprodução)

Esse “acesso político”, segundo Altit, era personificado pelo engenheiro civil Adalberto Valadão, então presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-DF). De acordo com a delação, ele era o “elo forte” de ligação entre o governo Arruda e as empresas locais de construção.

O G1 tentou contato com a atual gestão da Ademi-DF na tarde desta quinta (13), sem sucesso. A reportagem também não conseguiu localizar Adalberto Valadão, atual vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic).

“Ele [Valadão] não tinha a liderança da obra, a obra era conosco. Mas, a liderança política, as relações locais, aprovações, licenças, GDF, era o ‘seu’ Adalberto que tinha”, afirma o delator.

“Ele voltou dizendo que o governador Arruda estava demandando R$ 8 milhões de propina, por conta do contrato. A primeira reação foi bastante contra, de todos os sócios, e pediram a ‘seu’ Adalberto que voltasse pro ‘seu’ Arruda. E dissesse, ou que não se queria pagar, ou que, pelo menos, se reduzisse o valor de propina”.

Altit diz que Valadão levou o recado, e voltou aos empresários com uma negativa do então governador – “é preciso que se pague ao seu Arruda, ou não vai ter projeto”. Os empreiteiros teriam pedido, como alternativa, que os valores fossem repassados “na medida das vendas”, mas a pressão do Buriti teria continuado intacta.

De acordo com o ex-diretor da Odebrecht, as negociações prosseguiram até março de 2010, quando Arruda foi preso preventivamente e afastado do governo do DF em meio às investigações do mensalão do DEM. Mesmo assim, as pressões por pagamento teriam continuado.

“Nós identificamos no Drousys [sistema eletrônico que contabilizava os pagamentos] dois pagamentos. Um, de R$ 318 mil, e outro, de R$ 180 mil. Teriam sido destinados, na semana de 20 de setembro de 2010 a 24 de setembro de 2010, ao governador, através do senhor Adalberto”.

O governo mudou em 2011 mas, segundo Altit, as práticas seguiram inalteradas. Desta vez, o secretário de Habitação de Agnelo Queiroz (PT), Geraldo Magela, é quem teria recebido dinheiro para viabilizar empreendimentos.

Prédio construído no DF dentro do programa Morar Bem, vinculado ao Minha Casa, Minha Vida (Foto: Dênio Simões/GDF)Prédio construído no DF dentro do programa Morar Bem, vinculado ao Minha Casa, Minha Vida (Foto: Dênio Simões/GDF)

Prédio construído no DF dentro do programa Morar Bem, vinculado ao Minha Casa, Minha Vida (Foto: Dênio Simões/GDF)

De acordo com o ex-executivo da Odebrecht, a oferta em questão era relacionada a 50 mil unidades habitacionais no “segmento econômico” do Minha Casa, Minha Vida. Mais uma vez, a intermediação teria de passar por Adalberto Valadão – e, por isso, a empreiteira resolveu se aproximar do secretário.

“A gente não queria continuar, desculpe o termo que vou usar aqui, carregando seis empresas. Porque, no final da história, nós investimentos R$ 700 milhões, tomamos R$ 700 milhões com toda dificuldade na Caixa, a empresa de engenharia era nossa, etc, para os próximos projetos. Era uma aposta, sobretudo, de buscar uma aproximação [com Magela] e reduzir a dependência dos sócios locais”, afirma.

“E aí, foi tomada a decisão de dar um aporte, por fora, pra ele no valor de R$ 1,4 milhão para candidato, para que ele fosse candidato a senador. Ele acenara com as 50 mil casas mas, a bem da verdade, não posso mentir aqui e minha equipe é peremptória nisso, ele nunca disse ‘me dê dinheiro para a campanha que eu vou dar as 50 mil unidades’.”

O repasse, segundo Altit, foi feito entre março e outubro de 2014. Na eleição daquele ano, Magela ficou em terceiro lugar na disputa ao Senado – atrás do eleito Reguffe (sem partido) e do candidato à reeleição, Gim Argello (PTB).

Ao todo, o ministro Edson Fachin remeteu 201 pedidos de investigação a instâncias inferiores da Justiça Federal em todo o país, relacionados a pessoas sem foro privilegiado.

O ministro também autorizou a Procuradoria Geral da República (PGR) a investigar 8 ministros, 3 governadores, 24 senadores e 39 deputados. Os pedidos se baseiam na chamada lista de Janot, feita com base em delações de ex-executivos da Odebrecht.

Em nota a respeito de todo o conteúdo das delações, a Odebrecht disse entender que “é de responsabilidade da Justiça a avaliação de relatos específicos feitos pelos seus executivos e ex-executivos”.

“A empresa colaborou com a Justiça, reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um Acordo de Leniência com as autoridades brasileiras e da Suíça e com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas”, diz o texto.



Source link

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *